Contaminação de peixes do Rio Doce é 140 vezes maior que limite

Estudo feito na região atingida pela lama mostra alto teor de metais.
Camarão também é afetado por metais tóxicos, segundo estudo.

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A contaminação por metais de alguns peixes do Rio Doce ultrapassa os limites permitidos por legislação em até 140 vezes.

Este, por exemplo, é o nível de arsênio encontrado no peixe roncador, quando o máximo tolerado seria 1.

É o que aponta o primeiro laudo produzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) sobre pescados e mariscos da região.

O jornal A Gazeta teve acesso ao relatório com exclusividade.

O documento foi apresentado à direção de vários órgãos públicos – como Iema, Tamar, Ibama e o próprio ICMBio – e a pesquisadores em seminário realizado entre os dias 15 e 16 de março. Mas ainda não foi divulgado à população por nenhum deles.

O laudo faz parte de um conjunto de estudos que vem sendo desenvolvidos no Rio Doce  após o desastre ambiental causado pelo rompimento de uma barragem da Samarco, na cidade mineira de Mariana.

São executados por professores de várias universidades e vários órgãos públicos ligados a área ambiental.

Há expectativa de que o relatório dos pescados e outros sejam divulgados esta semana pelo Ministério do Meio Ambiente.

 

ICMBio
Em nota, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) esclarece que “não divulgou nenhum relatório, mesmo que parcial, acerca do levantamento sobre a biodiversidade marinha, realizado no litoral do Espírito Santo e da Bahia e nas unidades de conservação federais sobre sua administração – Rebio Comboios, APA Costa das Algas, REVIS de Santa Cruz e Parque Nacional Marinho de Abrolhos – em janeiro deste ano.

O relatório final consolidado, elaborado em parceria com as universidades que participaram das atividades científicas na região, será divulgado no dia 17 de abril”.

Excessos
As conclusões do documento não deixam dúvidas: “Há contaminação da água com metais acima dos limites permitidos pela Resolução 357, do Conama”.

E mais: “Há contaminação de pescados (peixes e camarões) acima dos limites permitidos pela Resolução 42, da Anvisa”.

Diz ainda que a contaminação atingiu as unidades de conservação e de preservação ambiental no entorno da região: o Arquipélago de Abrolhos, a Costa das Algas e o Refúgio de Vida Silvestre de Santa Cruz.

Em todas elas houve pontos de coleta de amostras para o estudo, assim como na Foz do   Rio Doce – Norte e Sul – e na região de Barra Nova.

Além do arsênio, o roncador citado no início da matéria também está contaminado por cádmio (12 vezes acima do limite) e chumbo (5 vezes a mais do que o permitido).

Não é diferente com o camarão: chega a ter 88 vezes o limite de arsênio (que é de 1) – mas foram encontradas espécies superando o limite em 115 vezes -, além de 5 vezes mais cádmio e 5 vezes mais chumbo do que a legislação estabelece.

O peroá também supera os limites de arsênio em 34 vezes e tem quase 3 vezes mais cádmio do que o permitido. É acompanhado de perto pelo linguado, que ultrapassa os limites de arsênio em 43 vezes, 9 vezes o de cádmio e 6 vezes o de chumbo.

Também é complicada a situação da água na região.

Os resultados apontam contaminação por chumbo total quase 10 vezes superior ao limite do Conama (que é de 10).

Também foi superado em 9 vezes o nível de cobre dissolvido (que é 5) e duas vezes o de cádmio total (5).

 

Pesquisadores no navio do ICMBio no Espírito Santo (Foto: ICMBio/ Divulgação)
Pesquisadores no navio do ICMBio no Espírito
Santo (Foto: ICMBio/ Divulgação)

 

Reações
Segundo João Carlos Thomé, o Joca, coordenador do Tamar e representante do ICMBio junto às universidades e demais órgãos, o estudo a que A Gazeta teve acesso foi desenvolvido pelo professor Adalto Bianchini, da Universidade Federal do Rio Grande (UFRG).
É uma prévia, diz Thomé, de um relatório que trará mais detalhes sobre a situação.

“O Bianchini possui o melhor laboratório de ecotoxicologia do país e ficou encarregado de analisar a situação dos pescados e mariscos da região”, explicou.

Joca observa que é exatamente pelos dados levantados pelo estudo que a pesca está proibida na Foz do Rio Doce entre Barra do Riacho, Aracruz, até Degredo/Ipiranguinha, em Linhares.

A decisão partiu da Justiça Federal, no final do mês passado, por tempo indeterminado.

Os poucos detalhes já divulgados são considerados extremamente preocupantes, como destaca o consultor ambiental Marco Bravo.

“É uma contaminação muito grave, por metais que vão se acumulando no organismo destas espécies e que não são eliminados. E vão comprometer a saúde. É um risco para a comunidade. Não há dúvidas”, diz.

Além da saúde, destaca Bravo, também a economia da região será afetada por tempo indeterminado.

O estudo também aponta níveis de contaminação altos na área de Barra Nova, onde é forte o sistema pesqueiro.

Engenheiro do Incaper de Colatina, no Espírito Santo, mostra o minério que fica nas margens do Rio Doce (Foto: Viviane Machado/ G1)
Engenheiro do Incaper de Colatina, no Espírito Santo, mostra o minério que fica nas margens do Rio Doce em 23/02/2016 (Foto: Viviane Machado/ G1)

 

Cadeia alimentar comprometida
Outro ponto do estudo diz respeito à cadeia alimentar.

A conclusão é de que houve “acumulação significativa de metais tóxicos na base da cadeia trófica (nos chamados zooplânctons).”

De acordo com o consultor ambiental Marco Bravo, a base da cadeia alimentar (trófica) são os fitoplânctons (as algas).

Depois vem os zooplânctons, que se alimentam das algas e servem de alimentos para peixes, que são alimentos de outros maiores.

E assim sucessivamente até chegar ao homem.

Quando há contaminação na base da cadeia alimentar, explica Bravo, todos acabam sendo contaminados.

“E o problema é maior à medida que a cadeia cresce. É onde se come mais seres contaminados”, detalha.

O estudo utilizou como parâmetro o zooplâncton porque ele foi encontrado em todos os pontos de coleta e com um volume significativo de acumulação de metais.

Também foi identificado um nível alto de contaminação nos corais da região.

A professora Sigrid Costa Valbon Freire, que leciona Ecologia e Análise na Faculdade Pio XII, explica que ocorre na região a chamada bioacumulação.

“Algumas substâncias tóxicas que não são metabolizadas acabam se acumulando no organismos dos seres”.

O problema, explica ela, é que os metais tóxicos atingem vias metabólicas de nosso corpo e reagem alterando reações químicas, nos causando problemas.

“Os metais tóxicos induzem a produção de radicais livres, que prejudicam as nossas células e complicam a nossa saúde”, diz, lembrando que em excesso eles podem causar várias doenças, inclusive câncer.

Uma outra expedição foi realizada na região com o navio Vital de Oliveira, da Marinha do Brasil. A pesquisa foi concluída e entregue em janeiro, mas o governo do Espírito Santo não divulgou o resultado.

Samarco diz que água é monitorada
A Samarco informou em nota que ainda não teve acesso ao laudo do ICMBio e reitera que desenvolve ações de monitoramento da qualidade da água ao longo do Rio Doce.

O monitoramento diário é feito em 118 pontos.

Já foram feitas cerca de 500 mil análises.

Segundo a empresa, a água também é monitorada na foz e no oceano.

Os laudos são enviados às autoridades ambientais competentes.

De maneira geral, há melhoria nos níveis de turbidez da água.

A empresa afirma que análises recentes mostram que a presença de metais pesados está dentro dos padrões da legislação.

Cabe ressaltar que o rejeito é composto, basicamente, de sílica e óxido de ferro, material inerte e não perigoso. Estudos preliminares feitos com o pescado mostram que sua qualidade não se alterou.

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Publicado em 2 de abril de 2016, em Food Safety. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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