Uso de agrotóxicos está ligado a casos de câncer

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) recomendou, neste mês, a redução progressiva da utilização de agrotóxicos nas plantações. De acordo com o instituto, a exposição aos pesticidas está ligada a casos de câncer. Até então, o Inca nunca havia se pronunciado a respeito da questão, que já vem sendo debatida no Rio Grande do Sul.
O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O consumo médio mensal chega a 5,2 quilos de veneno agrícola por habitante. Em 2001, a comercialização do produto no País movimentou um total de US$ 2 bilhões. Dez anos depois, em 2011, esse valor saltou para US$ 8,5 bilhões. O Inca atribui esse aumento à liberação do uso de sementes transgênicas, uma vez que elas exigem grandes quantidades de veneno. No Estado, o consumo chegou a 85 milhões de litros em 2010. A média é de 8,3 litros por habitante, o dobro da nacional, que é de 4,5 litros por pessoa.
Intoxicações agudas provocadas por agrotóxicos atingem principalmente trabalhadores rurais, que sofrem cólicas, diarreias, dificuldades respiratórias e convulsões. A exposição prolongada, além de oferecer risco à vida, pode causar infertilidade, impotência, aborto espontâneo, malformações e câncer. Em 2013, foram 5.500 casos de intoxicação registrados, número que pode não ser exato, uma vez que os sintomas são, muitas vezes, confundidos com os de uma virose.
No Rio Grande do Sul, já existe uma preocupação em discutir o tema. Neste mês, o Fórum Gaúcho de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (Fgcia) realizou a primeira audiência do ano, em Ijuí, para debater as consequências dos excessos na saúde e no meio ambiente. No município do Noroeste gaúcho, o consumo é de 650 litros por ano e a média anual é de 20 litros por habitante. Mais duas audiências, ainda sem data definida, estão previstas para a discussão do tema.
O procurador de Justiça e coordenador adjunto do Fgcia, Carlos Paganella, expôs preocupações contundentes em relação ao assunto. O receituário agronômico, expedido por agrônomos e técnicos agrícolas, nem sempre é respeitado. “O fórum propõe que o Conselho Regional de Engenharia ou outro órgão de classe passe a editar normas ou mapa para que os engenheiros agrônomos estejam presentes no momento da aplicação do agrotóxico”, enfatizou. Ele também frisou a importância da notificação ao Centro Estadual de Vigilância Sanitária, por parte de profissionais que trabalham junto ao Sistema Único de Saúde (SUS), dos casos em que pacientes apresentam sintomas de intoxicação por  agrotóxicos. Quando há uma suspeita não confirmada, a notificação também deve ser realizada.
Militante da causa, o deputado Edegar Pretto (PT) elaborou três projetos de lei que buscam a redução e a normatização do uso de agrotóxicos. Um deles, o Projeto de Lei nº 44/2015, obrigaria a indicação do uso dos produtos no rótulo de alimentos que, durante a fabricação, tenham sofrido contato com qualquer tipo de veneno. Outro proibiria o uso e a comercialização do agrotécnico 2,4D, considerado um dos produtos mais tóxicos e que não possui antídoto. Já a proibição da pulverização aérea é a pauta do terceiro projeto.
“Temos dados de que apenas 30% do veneno que cai de um avião atinge o alvo. Os outros 70% são espalhados pelo vento”, explica. “Os ventos não respeitam divisas. Os agricultores não podem jogar veneno por aí sem regulamentação ou critério.” De acordo com Pretto, muitos produtores e agricultores não têm interesse em utilizar os produtos nas lavouras, mas são obrigados, uma vez que o vento espalha o veneno jogado de aviões.

Falta de fiscalização e busca pela produção máxima são causas de abusos

O procurador de Justiça e coordenador adjunto do Fgcia, Carlos Paganella, atribui o descontrole à falta de fiscalização e à pressa em produzir o maior número de alimentos em pouco tempo. “Há uma corrida desenfreada em busca da colheita máxima, que pode ser impulsionada com o uso de certos venenos”, esclarece. Além disso, quando do fornecimento de receitas agronômicas, seria necessária a fiscalização da propriedade. “Às vezes, o produto é vendido como se fosse ser usado em um tipo de cultura e, no fim, é aplicado em outra.” Paganella citou o exemplo do herbicida glifosato, altamente cancerígeno, costumeiramente utilizado na soja ou no trigo. Há também falta de fiscalização in loco para a aplicação terrestre e aérea.

A necessidade de o produtor comprovar, perante o agente financeiro, que está tomando medidas para controle de pragas é um dos motivos que causa o uso excessivo. Além dos prejuízos à saúde, o meio ambiente também sofre. “A produção de abelhas vem sendo prejudicada. A pulverização aérea extingue colmeias inteiras, e isso afeta o equilíbrio ecológico. Não pode haver despejo de veneno dentro de uma área de 250 metros a partir da margem de mananciais e de 500 metros de agrupamentos populacionais.”

Para o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, o uso de agrotóxicos, embora condenável, é inevitável. “Algumas tecnologias de cultivo ainda dependem disso. Não há como manter a produção, hoje, sem eles”, justifica. Entretanto, Joel acredita que é possível reduzir as quantidades. “A Fetag recomenda que os agricultores só possam comprar os produtos com a recomendação agronômica, que disponibiliza agrotóxicos autorizados e nas dosagens certas.”

fonte: Jornal do Comércio

em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=194241

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Publicado em 22 de abril de 2015, em Agrotóxicos, Food Safety. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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