“Temos de usar menos pesticida nos alimentos”

Quem alerta não é um ambientalista, e sim o maior vendedor de pesticidas do mundo. Mas ele avisa: precisamos dessas substâncias para produzir mais comida

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O executivo americano Michael Mack preside um colosso que fatura US$ 15 bilhões por ano: a empresa suíça Syngenta, maior vendedora global de inseticidas, herbicidas, fungicidas e outros produtos químicos para a agricultura.

Essas substâncias garantem que o mundo produza alimentos suficientes para toda a humanidade. E garantem também que o Brasil seja uma potência na produção de alimentos, mesmo em sua condição de paraíso tropical para pragas.

A agricultura em grande escala, porém, tornou-se viciada e usa quantidades cada vez maiores de química.

Mack admite: como sociedade, temos um problema a resolver.

ÉPOCA – Entre 2000 e 2010, cresceu 85% o volume de produtos químicos usados na lavoura no Brasil, por hectare. O uso desses produtos cresce mais rapidamente que a produção de alimentos. Era uma promessa das empresas de produtos químicos, no fim do século XX, reduzir o uso deles na agricultura. Isso não ocorreu. Por quê?

Michael Mack – Não farei comentários específicos sobre as promessas feitas nos anos 1990. Mas comento o seguinte: a maioria das estatísticas que se veem sobre aumento de agroquímicos é de valor, não de volume. É preciso distinguir esses dois critérios. Se você é agricultor, e eu vendo a você um fungicida que funciona melhor contra a ferrugem asiática da soja, que contém a praga mais rapidamente ou por mais tempo, você produzirá mais. Posso cobrar mais por esse produto. Ele tem uma boa relação entre custo e benefício. Esse é um motivo para o gasto com agroquímicos crescer. A quantidade de agroquímicos pulverizada não precisa crescer junto.

ÉPOCA – Mas me refiro a um aumento na quantidade.

Mack – A humanidade tem de fazer escolhas. Se a população vai crescer, temos de decidir se queremos cultivar mais 1 bilhão de hectares e se queremos produzir nessa área de forma cada vez mais intensiva ou se preferimos cultivar áreas cada vez maiores a fim de aumentar a produção. Se expandirmos a área cultivada, colocaremos pressão sobre a biodiversidade. Eu argumentaria que temos de fixar a área a cultivar e produzir cada vez mais comida nessa mesma extensão de terra. Mas isso aumenta a intensidade biológica dessa área: nela crescerão mais plantas e haverá também mais pragas. Não é estranho imaginar que o aumento da quantidade de agroquímicos está associado ao aumento de produtividade na mesma terra. Mas acho que não devemos aceitar essa relação – devemos produzir mais intensamente numa área sem, necessariamente, aumentar o volume de agroquímicos usado nela. Temos de extrair da terra mais valor e mais produção, usando menos agroquímicos. É possível fazer isso.

ÉPOCA – Há casos concretos que possamos observar?

Mack – Em 2014, lançamos no Brasil um produto que permite melhor controle da ferrugem asiática da soja. O agricultor pode pulverizá-lo duas vezes, em vez de cinco a sete vezes, como teria de fazer com agroquímicos anteriores. É possível reduzir a quantidade de pulverizações em cada cultura existente. Há agroquímicos para prevenir pragas e outros para combater pragas que já se instalaram. É como na medicina humana. Agir para curar um problema que já se instalou tende a ser mais caro. É melhor prevenir – mas o agricultor tem de saber fazer isso muito bem, para não usar agroquímicos em excesso. Há conhecimento disponível para que o agricultor aplique a quantidade exata e mínima para prevenir as pragas.

ÉPOCA – Nos anos 1990, quando os transgênicos chegaram ao mercado, a indústria anunciava que a novidade daria segurança alimentar ao mundo. Hoje, isso soa ingênuo. Qual é a importância real da tecnologia no combate à fome?

Mack – Há muitas dimensões na insegurança alimentar. Tem a ver com superar a pobreza global, com cada país tentar alcançar o que considera o grau correto de autonomia na produção de alimentos. Parte do problema é política, parte é econômica, parte é tecnológica – trabalhamos nessa última parte. E, nesse aspecto, estamos menos envolvidos na tecnologia que vai “dentro” dos alimentos (como transgenia) e mais na tecnologia de produção agrícola. Enfrentar a insegurança alimentar no mundo não é só questão de produzir mais comida, mais grãos, e sim de como e onde o grão é produzido e que tipo de renda o produtor consegue com esse trabalho.

ÉPOCA – A Syngenta faz algo a respeito?

Mack – Temos uma estratégia chamada Plano de Bom Crescimento (em inglês, também pode ser entendido como Plano de Bom Cultivo). A ideia é observar boas práticas agrícolas – não necessariamente inventadas por nós – e que muito mais gente deveria usar. Podemos ajudar os produtores a fazer a rotação entre as culturas. Na Europa Oriental, a cevada pode ser cultivada como alternativa ao trigo. A beleza da cevada é que emerge do solo mais rapidamente. Por isso, é melhor que o trigo ao competir com as ervas daninhas. Alternar a cevada com o trigo permite que o agricultor use menos herbicidas. Outro exemplo, um dos maiores, é o plantio direto (em que o produtor, durante um plantio, mantém no solo os restos orgânicos da colheita anterior, em vez de removê-los). A técnica ajuda a reduzir a quantidade de água usada no plantio, mantém a umidade do solo e promove a biodiversidade, ao manter o solo coberto (mais nutritivo e habitável para seres diversos). É um exemplo de como uma prática agrícola muito básica, ainda não tão usada hoje quanto deveria, pode combater o excesso de consumo de água, a perda de solo e a erosão.

ÉPOCA – Mas falamos de plantio direto há muito tempo. Nos Estados Unidos pelo menos desde os anos 1950, e no Brasil pelo menos desde os anos 1980.
Mack –
Sabemos do problema faz tempo. Nos Estados Unidos, o dust bowl (vale do pó, violentas tempestades de poeira na região agrícola central dos EUA) foi uma catástrofe ambiental totalmente evitável. O fenômeno ocorreu por causa do uso de técnicas agrícolas ruins pelos agricultores nos anos 1930. A fim de produzir o máximo possível, num período de crise, eles removeram a camada superficial e a vegetação do solo e deixaram a poeira exposta ao vento. Essa história mostra como alguns descuidos podem causar catástrofes ambientais.

ÉPOCA – Por que ter metas para um ano distante como 2050?

Mack – É um jeito de conectar o que fazemos, como empresa de pesquisa e desenvolvimento, com o mundo que queremos em 2050. Adotamos esse ano porque, pelas estimativas atuais, é quando a população global poderá se estabilizar. É possível imaginar que teremos práticas ambientais completamente sustentáveis. É longe o bastante para conseguirmos cumprir metas intermediárias importantes, mas perto o bastante para que muita gente envolvida hoje com a mudança ainda esteja ativa para ver o plano virar realidade. Mas pensamos também no que podemos alcançar em 2020 para mostrar que vamos na direção certa – queremos maior produção agrícola, com práticas ambientalmente mais sustentáveis, consumindo menos insumos. Não seremos uma voz com credibilidade pela sustentabilidade ambiental se não submetermos nossos negócios ao escrutínio e não nos comprometermos com melhorar nossas práticas.

ÉPOCA – Nos próximos anos, que tipo de tecnologia deverá ter mais impacto na agricultura?
Mack –
Toda a tecnologia em nossa linha de produção tem a ver com um mesmo princípio fundamental: a natureza força a adaptação e leva à sobrevivência do mais apto. Pragas evoluem e lutam contra qualquer coisa que estiver em seu caminho. Diante de cada nova tecnologia, é questão de tempo para que pragas se tornem resistentes. Os produtos que estamos pesquisando se destinam a superar a resistência que as pragas têm diante dos produtos atuais. Em muitas partes do mundo, principalmente nos países em desenvolvimento, os agricultores costumam usar produtos muito ultrapassados, agressivos contra o solo e a água, que podem afetar seres vivos que não são seu alvo original. Os agroquímicos novos em pesquisa e desenvolvimento são muito mais seletivos que os anteriores. Além disso, há as sementes. Milho, soja, canola e algodão, hoje, já embutem muita tecnologia. Arroz, trigo e sorgo ainda não, mas isso acontecerá. Nossa compreensão dos genomas dessas plantas, agora, permite-nos afetar a interação delas com insetos, doenças, ervas daninhas, calor e seca. Nos próximos dez anos, produziremos sementes muito mais robustas e com comportamento mais previsível para o agricultor.

 

fonte:EPOCA

 

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Publicado em 14 de março de 2015, em Agrotóxicos e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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