Gordura trans: quando zero nem sempre significa ausência

Legislação permite que alimentos com até 0,2g de gordura trans indiquem no rótulo que não contêm o ingrediente

 

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A busca por uma alimentação mais saudável pode encontrar empecilhos já no rótulo das embalagens. Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) mostrou que o consumidor que busca, por exemplo, cortar a gordura trans do cardápio pode estar comprando gato por lebre, levando produtos que contêm este tipo de gordura, mas cujo rótulo diz ter “zero trans”. É que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) prevê que alimentos com até 0,2g de gordura trans por porção possam dizer que não têm esse item na composição.

A porção é outro ponto delicado nesta relação. Ela geralmente se refere a uma quantidade do produto inferior à encontrada no pacote. E há casos em que, enquanto haja menos de 0,2g de gordura trans em uma porção, o valor no produto inteiro ultrapassa essa quantidade. Foi o caso apurado pelo instituto em um pacote de biscoito cream cracker.

— Alguns produtos informam uma porção que não equivale a quanto a pessoa vai, de fato, consumir. A pessoa pode chegar a consumir mais de um pacote de biscoito por dia, e a embalagem não informa a quantidade de gordura que ela está consumindo no pacote — aponta Ana Paula Bortoletto, nutricionista do Idec.

Outro problema é que cada tipo de produto tem uma definição de tamanho de porção diferente: para biscoitos a porção é de 30g (o que equivale a um total de três a cinco biscoitos), já o de iogurte é 80g. Para a nutricionista, isso dificulta a comparação entre os produtos.

Desde 2004, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe que a gordura trans seja totalmente eliminada da alimentação. Porém, como Ana Paula ressalta, a indústria continua usando esse tipo de gordura em função das características que ela confere ao produto, como textura e sabor mais atraentes.

O problema é que esse gosto melhor e a textura mascaram os males que este tipo de gordura pode causar.

— A recomendação é de consumo zero porque ela é mais prejudicial do que a gordura saturada, pois leva mais facilmente ao entupimento das veias, acelerando problemas cardiovasculares — alerta a nutricionista.

INGREDIENTES PODEM DEDURAR

Apesar da tolerância de 0,2 g, a lista de ingredientes do alimento pode mostrar se ele tem chances de conter gordura trans ou não. Se gordura vegetal hidrogenada estiver listada, a chance de haver gordura trans é alta. A hidrogenação da gordura pode ser total ou parcial. No caso da primeira, não é gerada gordura trans, porém, este método não é usado na indústria alimentícia. Quando a gordura é hidrogenada apenas parcialmente, ela pode ter até 50% de trans.

Na pesquisa, o Idec encontrou um biscoito doce e um cookie com gotas de chocolate cujos rótulos informavam que há “zero gramas” de gordura trans e mas que, contudo, continham gordura vegetal hidrogenada na lista de ingredientes.

Mas nem sempre os rótulos indicam qual tipo de gordura vegetal é usado. E diferentemente do que ocorre com a hidrogenada, quando a gordura vegetal é interesterificada, explica a nutricionista, ela é formada a partir de um processo que não gera gordura trans.

— A interesterificada não é uma gordura saudável, mas a hidrogenada é pior. Assim como a trans, a interesterificada acelera o entupimento das artérias e aumenta o colesterol ruim (LDL). Porém, a interesterificada age em menor velocidade — explica Ana Paula.

REGRAS PARA RÓTULOS PODEM SER MUDADAS

Embora o cookie e o biscoito doce com gordura hidrogenada e o cream cracker não deixem claro a gordura trans presente em suas composições, eles não estão em desacordo com as normas da Anvisa para a rotulagem de alimentos. Por isso o Idec não identificou as marcas responsáveis por estes produtos.

Segundo o Ana Paula Bortoletto, a Anvisa já trabalha para revisar a tabela nutricional, e o Idec faz parte do grupo que discute as mudanças e vai propor alterações:

— A gente notificou a Anvisa e vamos levar ao grupo que discute a questão da tabela nutricional uma proposta de modificação. Por enquanto, o consumidor tem que olhar a lista de ingredientes, e, caso não haja informação, tem que entrar em contato com o fabricante.

E o objetivo do Idec é ir além da questão da gordura trans, abrangendo também novas regras para discriminar melhor a presença de açúcar:

— Acreditamos que é necessário ter informação detalhada da presença de açúcar, atualmente consta só que há carboidrato total, sem especificar. E é importante saber isso porque o açúcar está ligado a casos de obesidade e diabetes — conta a nutricionista.

Entre as propostas de mudança que o instituto fará estão a padronização das porções:

— Tem que haver outra maneira de identificar a quantidade de nutrientes — diz Ana Paula.

SEMÁFORO NUTRICIONAL

Outra ideia defendida pelo Idec é a adoção no rótulo do chamado semáforo nutricional. Como nos sinais de trânsito, será usado um esquema de três cores de acordo com a concentração do ingrediente em questão: verde para concentração baixa, amarelo para média e vermelha para alta. O objetivo é usar um mecanismo mais claro que a tabela nutricional.

— O semáforo nutricional foi elaborado no Reino Unido e já foi implementado lá e no Equador. É uma forma de a pessoa comparar, porque a tabela é importante, mas tem gente que tem dificuldade de entendê-la.

De acordo com a nutricionista do Idec, o semáforo seria usado para mostrar a quantidade de sódio, calorias, açúcar e gordura saturada, porque são ingredientes que causam doenças crônicas como diabetes, hipertensão e obesidade.

Consultada à Anvisa ainda não se posicionou sobre o levantamento e as críticas feitas pelo Idec.

Read more: http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/gordura-trans-quando-zero-nem-sempre-significa-ausencia-13869651#ixzz3DIFL3tam

 

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Publicado em 13 de setembro de 2014, em Nutrição e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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