Contaminação mata mais do que doenças no Sul em desenvolvimento

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Uxbridge, Canadá, 17/6/2014 – A contaminação, e não as doenças, é a principal causa de mortes no Sul em desenvolvimento, onde mata mais de 8,4 milhões de pessoas por ano, segundo novos estudos e análises. Esse número quase triplica a quantidade de mortes causadas pela malária e supera em 14 vezes a mortandade pelo vírus da deficiência imunológica humana e pela síndrome de imunodeficiência adquirida (HIV/aids).

Porém, a contaminação recebe apenas uma mínima fração da atenção dada a essas enfermidades. Esses documentos estão sendo apresentados desde o dia 16, e até o dia 20, ao Grupo de Trabalho Aberto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que prepara em Nova York sua nova agenda de desenvolvimento global que substituirá no próximo ano os Objetivos de desenvolvimento do Milênio (ODS).

“Os locais tóxicos, junto com a contaminação do ar e da água, impõem uma enorme carga aos sistemas de saúde dos países em desenvolvimento”, afirmou Richard Fuller, presidente da organização ecológica Pure Earth/Blacksmith Institute, com sede em Nova York, que preparou a análise no contexto da Aliança Mundial sobre Saúde e Contra a Contaminação (GAHP). A GAHP é uma entidade com a qual colaboram organismos bilaterais, multilaterais e internacionais, junto com governos nacionais, o setor acadêmico e a sociedade civil.

Fuller disse à IPS que a contaminação aérea e química cresce rapidamente nessas regiões e, quando também se considera o impacto total para a saúde da população, “as consequências são terríveis”. Esse futuro é totalmente previsível já que a maioria dos países industrializados resolveu em grande parte seus problemas de contaminação. O resto do mundo precisa de ajuda, mas a contaminação não está incluída no atual projeto dos ODS, acrescentou.

Os ODS representarão a nova agenda de desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU) quando vencerem os ODM, no próximo ano. Espera-se que os países, os organismos de assistência e os doadores internacionais determinem os destinos de seus fundos de ajuda em função desses objetivos, uma vez que sejam anunciados em setembro de 2015.

“Às vezes a contaminação é chamada de assassino invisível, sua repercussão é difícil de rastrear porque as estatísticas sanitárias medem a doença, não a contaminação”, explicou Fuller. Assim, frequentemente a contaminação erroneamente é representada como um problema menor, quando o realmente necessário são medidas sérias e já, destacou.

A análise do GAHP inclui os últimos dados da Organização Mundial da Saúde e outros organismos para concluir que 7,4 milhões de mortes serão causadas por contaminantes do ar, da água, do solo e dos alimentos.

A poluição ambiental é o principal fator de doenças nesses países, acima das enfermidades infecciosas e do tabagismo, assegurou Jack Caravanos, professor de Saúde Ambiental da Universidade da Cidade de Nova York e assessor técnico do Open Air/Blacksmith Institute. É muito difícil estimar as consequências que geram na saúde milhares de locais tóxicos contaminados com chumbo, mercúrio, cromo hexavalente e pesticidas obsoletos, detalhou à IPS.

Mas é provável que o cálculo de um milhão de mortes esteja subestimado, já que as investigações sobre o alcance do problema apenas começaram. “Recentemente descobrimos sítios cheios de pesticidas obsoletos na Europa oriental, contendo substâncias químicas muito tóxicas”, contou Caravanos. Esses produtos químicos não ficam no lugar. A chuva os arrasta para a terra e os cursos de água, e o vento sopra as partículas tóxicas a longas distâncias, que em ocasiões cobrem os cultivos e os alimentos, detalhou.

Um estudo do Open Air/Blacksmith Institute, realizado em 2012, estima que os resíduos de mineração, as fundições de chumbo, os vertedouros industriais e outros locais tóxicos afetam a saúde de 125 milhões de pessoas em 49 países.

“Identificamos mais de 200 lugares com contaminação no ar, na terra ou na água que colocam em risco cerca de seis milhões de pessoas”, afirmou em um comunicado John Pwamang, da Agência de Proteção do Meio Ambiente de Gana. “Entre eles há locais com envenenamento por chumbo pela reciclagem de baterias usadas de chumbo-ácido de automóveis, e zonas de desmantelamento de lixo eletrônico, onde são queimados cabos ao ar livre, cuja fumaça tóxica envenena localidades inteiras”, acrescentou.

Um crescente grupo de evidências científicas revela vínculos entre o número em expansão de produtos químicos tóxicos em nossos corpos e uma surpreendente variedade de doenças que incluem câncer, enfermidades cardíacas, diabete, obesidade, transtorno por déficit de atenção com hiperatividade, autismo, Alzheimer e depressão, assegurou Julian Cribb.

Cribb é autor do livro Poisoned Planet: How Constant Exposure do Man-Made Chemicals is Putting Your Life at Risk (O Planeta Envenenado: Como a Constante Exposição aos Produtos Químicos Fabricados Pelo Homem Coloca Sua Vida Em Perigo). “Há pelo menos 143 mil substâncias químicas artificiais, além de um número igualmente grande de produtos químicos não intencionais liberados pela mineração, queima de combustíveis fósseis e eliminação de resíduos”, afirmou por escrito à IPS.

“A cada ano são lançados aproximadamente mil produtos químicos industriais novos, segundo a ONU, que em grande parte não foram testados para a saúde e segurança das pessoas e do ambiente”, pontuou Cribb. Membros da GAHP em todo o mundo exortaram a ONU a incluir a contaminação em um lugar destacado nos ODS e redigiram um documento de posição e um projeto de proposta de texto da aliança sobre os ODS. Envolverde/IPS

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Publicado em 16 de junho de 2014, em Food Safety e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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