Acordo para redução de sódio pode azedar

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RIO – A redução voluntária de sódio em alimentos, pactuada pela indústria e pelo governo federal em 2011, corre o risco de não atingir todos os objetivos propostos.

Pesquisa elaborada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) revela que, mesmo após 2017, alguns alimentos poderão manter mais do que o dobro da quantidade recomendada de sódio. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a quantidade diária não deve ultrapassar dois gramas.

O estudo, desenvolvido em projeto sobre regulação de alimentos e doenças crônicas, apoiado pelo Centro Internacional de Investigação sobre o Desenvolvimento (IDRC, na sigla em inglês) — organismo que financia projetos para universidades e entidades civis — mostra que, mesmo após as propostas de redução, algumas quantidades ficarão acima de 600mg para uma porção de 100 gramas do produto, conforme critério de classificação do Semáforo Nutricional, sistema criado no Reino Unido pela Food Standards Agency (FSA, Agência de Padrões de Alimentos, em tradução livre).

O sistema consiste de alertas nas embalagens baseados em três cores: o sinal verde, de baixo teor, é atribuído à presença de menos de 100mg de sódio por 100 gramas; o amarelo, de teor médio, de 600mg por 100 gramas; e vermelho, altor teor, quando a proporção é superior a 600mg.

Mais da metade já está abaixo da meta

A pesquisa do Idec avaliou rótulos de 95 produtos em nove categorias reconhecidas pelo alto teor de sal, como linguiça, mortadela, salsicha, hambúrguer, sopas prontas, entre outros. Dos 11 tipos de produtos analisados, sete tinham meta a ser atingida em 2017 superior à quantidade média de sódio encontrada no produto atualmente. O estudo avaliou seis marcas de muçarela, oito de salsicha, oito de hambúrguer, oito empanados, oito linguiças, nove mortadelas, quatro de apresuntados e presuntos|), 24 de requeijão e 14 de sopas instantâneas.

O acordo dos fabricantes com o governo foi dividido em três fases e já inclui 16 categorias de produtos, o que corresponde a 90% dos alimentos industrializados, segundo o Ministério da Saúde. A primeira etapa, em abril de 2011, a quarta etapa inclui agora os chamados queijos e derivados e embutidos, de carne bovina, frango e suína.

A nutricionista do Idec, responsável pela pesquisa, Ana Paula Bortoletto, lembra que os limites são fixados a cada três anos, e a próxima revisão só deve ocorrer a partir de 2017. Ela diz, no entanto, que as próprias regras para o cálculo das metas precisam ser revistas.

— As metas se mostram muito brandas e não exigem grandes esforços da indústria para atingi-las. Como o acordo é voluntário, e não prevê sanção para o fabricante que não cumprir as metas, é necessário uma informação nutricional mais clara nos rótulos para o consumidor — avalia Ana Paula.

A nutricionista chama a atenção ainda para o aumento no consumo de produtos industrializados e pré-prontos, uma exigência a cada dia maior nos lares devido à dinâmica de trabalho das famílias. Apesar disso, segundo Ana Paula, embora ainda lentamente, o consumidor está mais preocupado em saber o que está consumindo.

O cardiologista Evandro Tinoco Mesquita, diretor do hospital Pró-Cardíaco, alerta que o atual consumo de sódio — e também de gorduras saturadas — no Brasil está atingindo cada vez mais crianças e adolescentes e elevando os casos de hipertensão, enfarte, acidentes cardiovasculares e problemas digestivos.

— Essa mudança nos hábitos alimentares deve começar cedo. Recentemente, o Brasil se posicionou de forma muito firme na ONU em favor do combate às mortes prematuras, desestimulando o consumo excessivo de sal, de bebidas alcoólicas e o tabagismo. A Sociedade Brasileira de Cardiologia e entidades congêneres dos EUA e da Europa se manifestaram também nesse sentido, no documento chamado Carta do Rio, que defende a redução no consumo de sódio e em 25% o índice de mortalidade precoce até 2025.

O acordo de redução voluntária foi assinado pela Associação Brasileira de Indústrias de Alimentação (Abia), Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (Abiq), Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) e Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado de São Paulo.

A Abia, que responde pela ABPA e Sincarnes, afirma que os produtos industrializados são responsáveis por 23,8% do total de ingestão de sódio no país, o que corresponderia ao consumo diário de 1,06 grama do nutriente ou 2,71 gramas de sal. Segundo a associação, o brasileiro consome por dia 1,03 quilo de alimento e 4,46 gramas de sódio, o equivalente a 11,38 gramas de sal, ficando o restante por conta do sal de cozinha e do adicionado à mesa. O levantamento realizado pelo setor produtivo para subsidiar o estudo totalizou 621 produtos, considerando teores mínimos, médios e máximos.

Redução de doenças crônicas

A Abiq, entidade que representa os fabricantes de queijos e derivados, afirma que há cerca de cinco anos a indústria vem pesquisando e realizando progressos no teor de sal dos queijos, responsável por inibir o desenvolvimento de bactérias indesejáveis, e que ajuda na formação da casca de proteção dos produtos. O sal nos queijos, explica, provêm de duas fontes: do sódio natural da matéria prima (leite) e do cloreto de sódio acrescentado. Segundo a Abiq, o consumo de queijos no Brasil ainda é “baixíssimo”, ao redor de 13 gramas por dia por pessoa, o equivalente a uma fatia fina.

O subcoordenador da Área de Alimentação do Ministério da Saúde, Eduardo Nilson, afirma que o acordo de redução de sódio nos alimentos é parte de uma iniciativa mais ampla do governo federal que visa à prevenção e a redução de doenças crônicas ligadas, entre outros fatores, aos hábitos alimentares. Para tanto, estão sendo adotadas ações que estimulem uma alimentação mais saudável, com ingestão de mais frutas, legumes, verduras e grãos.

— A meta é chegarmos a 2020 com o consumo de 5 gramas de sal por dia. Em prazo mais curto, num horizonte de quatro anos, o objetivo é reduzir para menos da média a quantidade de sódio nos produtos que apresentam os maiores índices de concentração.

Nilson explica que a quantidade mensurada de sódio não é equivalente à de sal, isto porque, o sal é encontrado naturalmente em todos os alimentos, enquanto o sódio é adicionado pela indústria. Assim, a meta de 5 gramas de sal (correspondente a uma colher rasa de chá) e equivale a 2 gramas de sódio.

fonte: O Globo
em: http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/acordo-para-reducao-de-sodio-pode-azedar-12208896#ixzz2zTIwfJbW

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Publicado em 12 de maio de 2014, em Nutrição e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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