Empresas dificultam acesso do consumidor a informações sobre produto com problema

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RIO – O que fazer quando um produto que você consome há anos, apresenta aparência, conteúdo ou sabor diferentes dos habituais ou um objeto estranho?

Recorrer ao fabricante é a primeira opção, já que as empresas são obrigadas por lei a trocar mercadorias com defeito.

No caso de alimentos e bebidas, porém, a simples substituição pode não ser suficiente para encerrar o assunto.

O consumidor quer saber o que havia de errado com o produto e se há risco de danos à saúde.

A saída, então, pode ser o registro na polícia, no Procon, na Vigilância Sanitária e até recorrer à Justiça.

— Uso esse adoçante há mais de 20 anos, desta vez, foi diferente.

Quando fui beber o café, senti um gosto muito estranho, semelhante à água sanitária, meus amigos também.

Vi que o produto estava no prazo de validade.

Entrei em contato com a empresa.

Eles retiraram o produto na minha casa e me deram cinco embalagens das grandes, mas o que eu queria mesmo era saber o que continha no frasco que entreguei — reclama Casanova.

Falta do lacre é justificativa

Um mês depois de receber a queixa, a Hypermarcas informou ao consumidor que no frasco do Zero-Cal Sacarina e Ciclamato 200ml, com validade até dezembro de 2013, do lote A10L1092, entregue por Casanova não havia adoçante.

Mas a empresa não informou a Casanova que produto era aquele que foi consumido por ele e seus convidados, pois o frasco entregue estava sem o lacre.

— Achei a resposta absurda.

É claro que o frasco estava sem o lacre.

Como é que ia usar o produto sem abri-lo? Depois disso, decidi ir à Justiça e pedir indenização por danos morais.

Consumi um produto desconhecido, que pode representar danos a minha saúde — argumenta Casanova.

Procurada pelo GLOBO, a Hypermarcas informou que analisou a amostra enviada pelo consumidor e não identificou os desvios informados.

A marca também avaliou o lote do adoçante, “que apresentou todos os parâmetros conforme a especificação do produto.

Zero-Cal ressalta que segue rígidos controles de qualidade e segurança.”

No fim do ano passado, a publicitária Izadora Azevedo comprou 36 bombons Sonho de Valsa nas Lojas Americanas do Barrashopping para distribuir no trabalho.

Ao abrir a embalagem, o presidente da empresa observou que uma larva se mexia em meio ao chocolate.

— Dos 36 bombons, 27 foram distribuídos, alguns comidos.

A empresa em que trabalho tem em torno de 50 funcionários, claro que a notícia correu rápido e houve desconforto entre os que já que haviam comido.

Foi horrível, fiquei morrendo de vergonha, constrangida.

O papel (da embalagem) estava intacto — conta Izadora.

Nove meses à espera de um laudo

No mesmo dia, Izadora entrou em contato com a fabricante, a Mondelez, pelo site.

A empresa retornou o contato, mas só em 30 de dezembro a consumidora conseguiu enviar a nota fiscal e o vídeo que mostra a larva.

A ideia era levar o bombom a uma delegacia, para uma avaliação imparcial do produto.

Mas, como era fim de ano, Izadora acabou desistindo e congelou o bombom, conforme orientação da fabricante, a espera do recolhimento.

— Pegaram o bombom na minha casa em 6 de janeiro e disseram-me que iam fazer uma troca.

Entreguei um bombom e recebi cinco.

Se não tivesse passado pelo constrangimento não sei se teria tido paciência de correr atrás.

Deram uma resposta antes de pegarem o produto — conta Izadora, referindo-se ao fato de a empresa ter respondido ao GLOBO, antes de recolher o bombom em sua casa, que tratava-se de um erro de armazenamento na varejista.

Izadora não acredita em uma resposta transparente da empresa.

— Acho difícil admitirem que houve um erro.

Receber o resultado de uma análise neutra de fato, imparcial, me deixaria mais tranquila.

A Mondelez Brasil informou que lamenta situações como a relatada pela consumidora e que tem rigorosos controles de qualidade.

E acrescentou que infestações como as relatadas podem ocorrer caso, nos pontos de venda, os produtos sejam armazenados ou expostos de maneira inadequada.

“Neste caso, existe o risco de que as embalagens sejam perfuradas por insetos, ainda que de forma imperceptível.

Mesmo considerando que a gestão das lojas é de responsabilidade de seus proprietários, estamos intensificando ações de conscientização para minimizar o risco de ocorrências como essas”, afirmou a Mondelez em nota.

Já as Lojas Americanas informaram que estavam apurando o ocorrido junto ao fabricante da mercadoria para tomar as providências necessárias.

Em maio de 2013, a professora Rosa Maria de Carvalho encontrou um corpo estranho no molho de tomate refogado da Predilecta.

Fotografou o material e enviou à empresa.

A fabricante entrou em contato para trocar o produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor (CDC).

Rosa, porém, preferiu levar o molho a uma delegacia perto de sua casa e registrar a ocorrência.

O objetivo da consumidora era obter um laudo isento, a partir de análise feita pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).

Um inquérito foi aberto na 41ª DP, mas foi preciso esperar nove meses para saber o que havia na embalagem.

O laudo foi divulgado apenas ontem.

O corpo estranho misturado ao molho de tomate era de fato uma massa sólida, de cinco centímetros, formada por fungos.

— Achei o laudo pouco conclusivo.

Eu já sabia que eram fungos.

O dado positivo é que ficou provado pelo exame do instituto que aquilo não foi colocado por mim dentro da embalagem.

Não me arrependo de ter procurado a polícia, apesar da demora — afirma Rosa.

A Predilecta havia informado, antes da divulgação do laudo do Carlos Éboli, ter feito contraprova referente ao lote do produto em questão, e nada ter constatado.

De acordo com a nutricionista Ana Paula Bortoletto, pesquisadora de alimentos do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em casos como os relatados pelos três consumidores é importante que se informe ao fabricante, ao Procon e à Vigilância Sanitária, afinal pode ser uma situação de saúde pública:

— Também é fundamental que reúna provas, como fotos e nota de compra.

Dependendo do dano causado e da extensão do problema, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária poderá obrigar a fabricante a realizar um recall do produto.

E isso vai facilitar um eventual pedido de reparação de danos na Justiça.


fonte: O Globo


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/empresas-dificultam-acesso-do-consumidor-informacoes-sobre-produto-com-problema-11718440#ixzz2yi6BXJIU

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Publicado em 24 de abril de 2014, em Food Safety, Legislação e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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