Espanha pressiona por regras para engarrafamento do azeite de oliva

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Toda manhã, os cafés daqui se enchem de gente que vêm tomar o café da manhã típico espanhol, que inclui jogar azeite de oliva de uma galheta de vidro em cima de uma fatia de pão torrado.
No entanto, a galheta tradicional está sendo substituída por uma garrafa rotulada, selada e não reutilizável ou outro tipo de recipiente que siga as rigorosas normas de engarrafamento de azeite que entraram em vigor em janeiro.
A Espanha é o maior produtor mundial de azeite de oliva. As novas regras foram criadas, principalmente, para melhorar a higiene dos alimentos, mas os produtores de azeite também esperam que essas regras os ajudem a construir um reconhecimento mais sólido para suas marcas e até a aumentar as vendas e as exportações a mercados como o dos Estados Unidos, onde o azeite espanhol perde o primeiro lugar para o azeite italiano.
A Espanha agiu por conta própria depois de que a Alemanha e outros países do norte da Europa – que consomem, mas não produzem azeite – bloqueassem uma proposta da Comissão Europeia no ano passado para impor essas normas em todos os 28 países da União Europeia.
Os países do norte disseram que uma legislação mais rigorosa produziria custos adicionais e mais lixo, com garrafas usadas, semivazias e descartadas ao invés de serem reutilizadas.
O primeiro-ministro britânico David Cameron também ridicularizou o plano de regulamentação como prova do intervencionismo desnecessário por parte dos burocratas de Bruxelas.
Em maio, Cameron afirmou que o azeite de oliva é “exatamente a área de que a União Europeia precisa se afastar, em minha opinião”.
Um debate semelhante ocorreu na Espanha, mas mais moderado porque o governo de Madri claramente ficou do lado dos produtores de azeite, alegando que regras mais estritas aumentariam a segurança sanitária, garantiria autenticidade, e daria aos consumidores a oportunidade de identificarem a qualidade e a origem do azeite.
Os produtores têm se esforçado para aumentar a conscientização sobre a marca entre os consumidores – e, portanto, o valor de seu produto – inclusive na terra das azeitonas, Andaluzia, no sul da Espanha.
“A rastreabilidade é importante para a segurança alimentar, mas nós também temos de criar muito mais consciência nas pessoas de que o azeite não é algo banal, e sim nobre e muito especial”, disse Álvaro Olavarría , diretor de Oleoestepa.
A empresa tem uma receita anual de 75 milhões de euros (cerca de US$ 103 milhões), e afirma ter sido o primeiro produtor espanhol a vender azeite de oliva em garrafas não reutilizáveis há pouco mais de uma década.
A Federação Espanhola de Hotelaria, que representa mais de 100 mil empresas, se opôs às regras mais rigorosas, repetindo as recentes preocupações da Alemanha e outros países do norte.
Com a Espanha recentemente saindo de uma recessão de dois anos e ainda lutando com suas consequências, “estamos diante de uma mudança injustificada e desnecessária que vai gerar mais custos na hora errada”, disse Emilio Gallego Zuazo, secretário-geral da Federação.
Hoje em dia, os proprietários de cafés costumam encher suas galhetas plásticas de 5 litros.
As regras de rotulagem não se aplicam ao azeite utilizado na cozinha, mas o custo do azeite que é oferecido nas galhetas deve aumentar de três a cinco vezes, dependendo de que opções de engarrafamento e rotulagem sejam escolhidas, segundo Gallego Zuazo.
Alguns restaurantes podem até decidir cobrar pelo azeite de oliva extravirgem, mas espera-se que a maioria continue fornecendo o azeite engarrafado gratuitamente.
Talvez uma alternativa mais barata seja migrar para pacotinhos individuais como os de ketchup e maionese.
A indústria do azeite contesta qualquer previsão financeira catastrófica.
Primitivo Fernández, diretor da Anierac, Associação Nacional das Indústrias Engarrafadoras e das Refinarias de Azeites Comestíveis da Espanha, calculou que o custo de um café da manhã médio deve aumentar apenas um centavo de euro, bem menos do que o custo das últimas regras para as embalagens de outros produtos como a manteiga.
Quanto à preocupação com o lixo, Fernández disse que “se estivéssemos mesmo preocupados com os danos ambientais, estaríamos falando primeiro de problemas como o engarrafamento da Coca- Cola”.
No geral, Fernández disse que “até agora, o consumidor não faz ideia da origem do azeite, se ele foi misturado e nem sequer como reclamar se seu sabor não estiver bom ou se houver suspeita de fraude”.
Alguns estabelecimentos de luxo mostraram sua insatisfação com o setor hoteleiro, acolhendo as regras de engarrafamento como parte de seus esforços para aumentar a reputação da gastronomia espanhola.
“A Espanha é o maior produtor do mundo, mas não tem a cultura de consumo que tal classificação merece”, disse Jesús Santos, dono de cinco restaurantes em Madri e Bilbao que servem, principalmente, pratos bascos.
Assim como acontece com o vinho, Santos acrescentou que “os consumidores devem ser encorajados a pedirem por um azeite específico ao invés de simplesmente usar o que houver na cozinha”.
Outra frustração espanhola de longa data é que a Itália tem se focado com maior sucesso na exportação de azeite de maior qualidade, conhecido como extravirgem, mesmo sendo o maior importador do azeite de oliva espanhol, comprado principalmente a granel.
Uma explicação para essa influência na exportação da Itália é que as pizzarias e outros restaurantes italianos em países como os Estados Unidos ajudaram a promover seu próprio azeite muito antes que a Espanha começasse a segmentação desses mercados.
Outro motivo é que a Itália estava entre os seis países europeus que estabeleceram um sistema comum de mercado e subsídio para o azeite em 1966, 20 anos antes que a Espanha e o Portugal aderissem à União Europeia e também fossem elegíveis a esses subsídios agrícolas.
“As regras do mercado europeu de azeite foram feitas sob medida pela e para a Itália.
A percepção mundial ainda é de que o azeite de oliva é muito mais italiano do que espanhol, então é como brincar de pega-pega e tentar esclarecer alguns fatos”, disse Olavarría, da empresa de azeite de oliva Oleoestepa.
Produtores italianos e portugueses também se beneficiaram com regras locais mais rigorosas de rotulagem de azeite, disse Olavarría, “algo que os produtores espanhóis vêm exigindo há décadas, mas pela que, infelizmente, tiveram que esperar até agora”.
Mesmo com as regras ainda não aplicadas em toda a União Europeia, “agora elas já dão à Espanha a chance de garantir que cada visitante volte para casa com uma apreciação mais clara de nosso azeite”, acrescentou.
A Espanha espera receber cerca de 60 milhões de visitantes em 2013, virando um dos maiores destinos turísticos do mundo.
O júri está decidindo se a nova lei e um reconhecimento superior das marcas poderiam aumentar as vendas. Gallego Zuazo, da Federação de Hotelaria, disse que “essa mudança obrigatória não vai trazer o efeito positivo que os produtores estão esperando”.
Na verdade, “oferecer o azeite na mesa gratuitamente tem sido fundamental para aumentar sua popularidade e isso pode ir contra essa tendência”, acrescentou.
Um grupo de pessoas tomando café da manhã recentemente em Los Chicos, um café de Madri, disse que entenderam que os produtores queiram aumentar suas vendas, mas não a problemática em relação às galhetas.
“Eu uso azeite há 70 anos e nunca passei mal”, disse Juan Marín, um aposentado, “mas a comida tem ficado cada vez mais cara e isso, sim, me faz mal”.
fonte: The New York Times News Service
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Publicado em 25 de janeiro de 2014, em Legislação, Nutrição e marcado como . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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