Pesticidas: acusada de prejudicar abelhas, Bayer pesquisa culpado diferente

 

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MONHEIM, Alemanha – A Bayer se preocupa com as abelhas.
Ou pelo menos é isso que eles afirmam no Centro de Apoio à Abelha da empresa neste enorme campus situado entre Düsseldorf e Colônia.
Do lado de fora do prédio aconchegante de dois andares que abriga o centro situa-se uma esquisita escultura amarela de abelha.
Dentro, a mesma imagem é vista em clipes, guardanapos e canecas.
“A Bayer compromete-se rigorosamente com a saúde das abelhas”, afirmou Gillian Mansfield, funcionária especializada em comunicação estratégica da divisão CropScience da empresa.
Ela estava na cafeteria semicircular do centro, que conta com uma cafeteira de expressos formidável e, se você pedir, mel produzido pela própria Bayer.
Nas paredes ao redor, curiosidades sobre abelhas estão escritas em inglês, tais como “uma abelha pode voar por volta de 25 quilômetros por hora” ou ela coleta “néctar em perto de dois milhões de flores para produzir 450 gramas de mel”.
No ano que vem, a Bayer vai abrir outro Centro de Apoio à Abelha em Raleigh, Carolina do Norte, e não excluiu outras partes do mundo.
Existe, é claro, um pequeno senão a toda essa boa vontade.
A Bayer é uma das maiores produtoras de um tipo de pesticida que a União Europeia ligou à morte em massa de populações de abelhas melíferas na América do Norte e na Europa Ocidental.
O veneno é conhecido como neonicotinoide, classe de pesticida relativamente novo derivado da nicotina.
O pesticida foi proibido neste ano para uso em muitas colheitas florescendo na Europa que atraem a abelha produtora de mel.
A Bayer e duas concorrentes, Syngenta e BASF, discordaram da proibição e estão lutando nos tribunais europeus para derrubá-la, fazendo um grupo de defesa, Observatório Corporativo Europeu, a chamar as três fabricantes de “assassinas de abelhas”.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA na sigla em inglês) disse que suas “conclusões científicas são semelhantes às expressas” pelos órgãos reguladores europeus, mas que não viu base suficiente para decretar uma proibição similar.
Segundo documento interno da EPA, que vazou em 2010, o “maior fator de preocupação” de um dos pesticidas, clotianidina, da Bayer, usado para revestir sementes de algodão e de mostarda, “é com insetos não visados (isto é, abelhas melíferas)”, classificando-o de “altamente tóxico”.
Uma coalizão de apicultores e grupos ambientalistas está processando a agência para que se institua a proibição.
Nem todo mundo acredita que a Bayer se preocupe com as abelhas.
Hans Muilerman, especialista em química do grupo ambientalista Pesticide Action Network Europe, acusou a Bayer de fazer “praticamente qualquer coisa que ajude seus produtos a continuarem no mercado: ação de lobby maciça, contratar empresas de relações públicas para planejar e interpretar informações, convidar comissários para conhecer suas fábricas e sustentabilidade”.
“Depois que descobriram que as pessoas se importam com as abelhas, eles ficam felizes em começar o tipo de ações que mencionou, ‘centros de apoio às abelhas’ e assim por diante.”
Existe um bandido rondando o Centro de Apoio à Abelha – um assassino de abelhas, se assim preferir.
Só que não é um pesticida.
O culpado da Bayer nas mortes misteriosas em massa de abelha pode ser encontrado logo depois da cafeteria.
Pairando ao lado de outra escultura de abelha existe a escultura de um parasita conhecido como ácaro varroa, que parece um siri gigante cozido com cabelo espetado.
Por vezes chamado de ácaro vampiro, o varroa parece estar correndo atrás da abelha ao seu lado, que já tem um pequeno ácaro preso a ela.
E caso a mensagem não esteja clara, imagens dos ácaros, na verdade bastante pequenos, cintilam em uma tela no centro.
Enquanto os outros acusam os pesticidas, a Bayer financiou pesquisa que culpa os ácaros pela morte em massa.
E o centro combina recursos de duas divisões da empresa, Bayer CropScience e Bayer Animal Health, para aprofundar os estudos da ameaça do ácaro.
“O varroa é a maior ameaça que temos”, afirmou Manuel Tritschler, 28 anos, da terceira geração de uma família de apicultores que trabalha para a Bayer.
“É muito fácil ver os ácaros nas abelhas”, ele afirmou, segurando uma proveta com ácaros mortos suspensos no líquido.
“Eles sugam o sangue dos adultos e das larvas, e dessa forma transportam vários patógenos diferentes, vírus, bactérias e fungos para as abelhas.”
De forma conveniente, a Bayer comercializa produtos que também matam os ácaros – um se chama CheckMite – e o trabalho de Tritschler no centro incluía ajudar a projetar um “portão” a ser afixado às colmeias para cobrir as abelhas com esses compostos químicos.
Não há dúvidas de que o ácaro varroa seja um problema, mas Muilerman afirmou que ele não poderia ser visto como a única ameaça.
O ácaro varroa “não consegue explicar as mortes em massa por si só. Nós achamos que a morte maciça resulta da exposição a uma série de pressões.”
Embora algumas abelhas morram no inverno, mortes maciças extraordinárias foram observadas pela primeira vez em 2006 e foram chamadas pelos cientistas de “síndrome do colapso da colônia”.
Em 2007, um painel de especialistas do governo norte-americano afirmou que no inverno daquele primeiro ano, “até 50 por cento de todas as colônias teriam sido perdidas, demonstrando sintomas inconsistentes com o dano provocado pelo ácaro ou quaisquer outras causas conhecidas de morte”.
A Europa Ocidental também vivenciou declínios abruptos e proibiu os neonicotinoides em ambientes com maior probabilidade de contaminar as abelhas depois que a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar citou preocupações.
A proibição voltará a ser analisada após dois anos.
Embora abelhas melíferas sejam suscetíveis a muitas ameaças, como besouros e doenças bacterianas, um acervo crescente de pesquisa se concentrou nos neonicotinoides.
Em outubro, estudo publicado em “Proceedings of the National Academy of Sciences” examinou como a clotianidina da Bayer “afeta desfavoravelmente a resposta imunológica do inseto e promove a replicação de um patógeno viral em abelhas melíferas com infecções ocultas”.
Mansfield, da Bayer, não questiona em termos gerais esses estudos.
“Porém, no fim das contas, são resultados de laboratório, lá obtidos muitas vezes em doses não reproduzíveis ou apropriadas para uso no campo, em condições laboratoriais bastante controladas.”
De volta ao centro – que tem sua própria conta de Twitter – existem a abelha e o ácaro.
Tritschler, que aprendeu apicultura com o pai e o avô, levou um repórter por um apiário que abriga nove colônias de abelhas da Bayer, hibernando em novembro em caixas de madeira, com dez mil a 15 mil indivíduos por colônia.
Ele ofereceu um traje que cobre o apicultor da cabeça aos pés, mas não o usa.
Segundo ele, 20 ácaros varroa podem virar 1.200 em questão de meses.
“Somente um ácaro é necessário para matar praticamente uma colônia inteira.”
Parado ali perto, Utz Klages, porta-voz da empresa, disse que “nós temos todos os especialistas aqui”.
“Nós não vamos resolver o problema amanhã, não tenho a menor dúvida disso, mas juntos creio que podemos criar soluções
inovadoras.”
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Publicado em 4 de janeiro de 2014, em Agrotóxicos e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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